Minutos

2010 fevereiro 7
por Francine Ramos

Eu não fico mais aqui. Ela anunciou enquanto rodava a colher de prata na xícara de porcelana cheia de café. No mesmo instante um pássaro passou pelo vidro da cafeteria, ela não percebeu. Como também não percebeu que na rua uma velhinha era ajudada por um rapaz de gorro azul a atravessar a rua. O rapaz de gorro azul ouvia alguma bela canção em seu iPod. E quando terminou de ajudar a velhinha, tocou, sem querer, os ombros de outro rapaz que cruzou o seu caminho rapidamente – passos largos motivados por alguma emoção: tristeza, alegria? Tão difícil saber. Exatamente no mesmo momento que a voz de Silvia ecoou pelo salão da cafeteria. Eu não fico mais aqui. Disse olhando fixamente para os olhos de Camila. Eu não fico mais aqui, e tomou um grande gole de café.

Por quê? Indagou Camila assustada, como mostrava claramente seus olhos verdes escondidos, sem querer, pelos seus cabelos vermelhos que delicadamente caiam sobre o seu rosto.

Vontade, simples assim. Mas isso não era uma verdade completa. Os olhos de Silvia não enganavam, Camila percebia muito bem isso; acenou sua mão para o garçom: traz a conta, por favor. E olhou fixamente para os olhos cinza da sua amiga: onde vamos parar com isso?

Silvia não respondeu, ficou olhando pela janela o movimento da rua: tantas pessoas desconhecidas tentando viver de uma maneira ou de outra. Sentiu, de repente, o frio do ar condicionado e disse: não é estranho esse frio imenso aqui dentro e o calor insuportável lá fora?

Foi a vez de Camila não responder. Assinou o papel do cartão de crédito de um jeito diferente, talvez fossem suas pulseiras grossas, cor de jabuticaba, que estavam atrapalhando. Tudo bem, isso não importa. Silvia insistiu em pagar a conta, Camila não deixou: se você vai realmente embora, me deixa pagar o nosso último café. As duas sorriram com o canto dos lábios.

E no pequeno espaço do tempo, onde simplesmente se sai de algum lugar comum, o telefone de Camila tocou e elas pararam de caminhar em direção a saída. Silvia ficou olhando para a rua. Olhar de nada para o nada procurando o nada. Sua blusa branca e larga, sem querer, escorregou dos seus ombros mostrando sua mancha de nascença no ombro direito, seus sapatos vermelhos começavam a incomodar e seu cabelo preto brilhava demais com a luz do sol.

Ela viu um rapaz bonito de gorro azul. Camila dizia alguma coisa ao telefone enquanto empurrava a amiga. Vamos, vamos, caminhe. Silvia obedeceu tentando escapar dos raios de sol que tocavam o vidro, pois assim o gorro azul ficava ofuscado e os olhos cinza de Silvia quase fechavam. Onde está meu ray-ban? Silvia sussurrou enquanto procurava os óculos na bolsa, com a ponta do pé tentava abrir a porta de vidro e se livrar de uma vez por todas daquele ar frio.

Que confusão duas mulheres são capazes de fazer para sair de uma cafeteria. Esses foram os pensamentos do rapaz do gorro azul, que, próximo a cafeteria, pouco tempo após esbarrar no outro cara, resolveu ascender um cigarro enquanto esperava o semáforo abrir. E o semáforo abriu, e Camila desligou o telefone enquanto Silvia procurava por alguma coisa do outro lado da rua.

Você reparou no cara de gorro azul? Silvia disse a Camila enquanto colocava os óculos de sol. Que cara? Camila respondeu com um olhar perdido. Silvia sorriu.

Eu quero ir embora daqui porque os minutos estão descompassados, fora do ritmo. E Camila com seus olhos verdes escondidos pelos fios de cabelo vermelho, fez um olhar de desentendimento. Silvia continuou: por uns segundos a menos eu não teria perdido o rapaz do gorro azul das minhas vistas, por uns segundos a menos dentro da cafeteria eu não teria sentido tanto frio.

Sobre não conseguir explicar

2010 fevereiro 4
por Francine Ramos

Eu gosto de filmes verdadeiros, aqueles que as coisas acontecem num ritmo real, através de uma cena real e que no fim as coisas são como realmente são. E sim, isso pode ser visto num filme de ação, quem sabe num filme épico ou numa história cujo cenário é irreal. Mas a verdade – aquela que mora dentro da gente – deve sempre vir à tona, de uma maneira ou de outra, ou por bem ou por mal; ou por vaidade ou por necessidade. E quando um filme tem qualquer elemento assim eu amo, simplesmente amo ao ponto de não conseguir explicar muito bem por quê.

Admiro pessoas que conseguem explicar em detalhes porque gostou de tal filme, porque gostou mais ainda daquele outro do que esse que passou na TV. Admiro mesmo! Porque pra mim é tão difícil explicar que eu gosto, que eu amo, que eu sinto. Será que é por isso que escrevo? Por querer tentar explicar; não conseguir; e tentar; e tentar; e tentar. Pode ser.

Minha admiração é maior ainda por quem gosta de musicais. E a vida é algo estúpido assim? Ao ponto de, de repente, entre uma conversa e outra, eu sair saltitando, dançando e, de repente (mais grotesco ainda), eu volto a conversar normalmente como se nada tivesse acontecido? Nada tivesse acontecido. Isso eu não gosto, esse fingir besta que destrói tudo.

O que fica de fora

2010 janeiro 30
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por Francine Ramos

Alguns comentários que recebo aqui no blog me deixam bastante pensativa. O último post, Xícara, rendeu comentários interessantes, pois muitas vezes algumas coisas ficam perdidas nas entrelinhas e eu não me dou conta. Talvez seja o meu amadorismo, talvez.

Desse post, a única coisa que realmente existe é a xícara, que na verdade é uma caneca de porcelona onde eu tomo café todas as manhãs, lá no trabalho. Todo o resto é ficção; e a história da xícara – porque e como a tenho – ficou de fora do texto, mas é sobre isso que eu acabei escrevendo, o que ficou de fora!

E agora lembrei do filme Quase Famosos, tem uma cena que um jornalista pergunta ao músico o que faz uma música ser boa ou não, ele responde: “a música é feita do que fica de fora”.

As palavras não são exatamente essas, mas é isso aí.

Xícara

2010 janeiro 17
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por Francine Ramos

O que sobrou foi uma xícara. O que sobrou foi uma xícara que recebe uma sombra clara todos os dias quando são seis da manhã. É sempre uma nuvem que passa pela janela, espantando os pequenos pássaros lá de fora. E a xícara, sobre a mesa vermelha com pés enferrujados, de branca fica cinza por alguns minutos.

Quando ainda desperto, quando ainda sobrevôo meus pensamentos tentando quebrar o sentindo de que tive bons sonhos, do que é realidade e ilusão, lembro-me imediatamente que a xícara está lá, como se ela me esperasse para ficar cinza. Calço meus chinelos e desço as escadas ainda sonolenta, ainda mal vestida, ainda despenteada. Sinto um cheiro de café, sinto o gelado das paredes com aqueles quadros feios que minha mãe gosta. E a xícara está lá.

Olho pra ela como se não a visse, como se ela fosse qualquer objeto transparente, translúcido, desinteressante, mas é tudo ilusão porque eu olho, verdadeiramente, como se fosse possível quebrá-la, com se fosse possível com a força do meu pensamento jogá-la contra a janela. E então chega a nuvem e forma aquela sombra. Aquela sombra maldita que a deixa tão mais sólida, tão mais densa, tão mais você.

Nesses longos minutos de sombra na xícara é como se eu também recebesse toda aquela sombra, como se eu, nuvem tenra, de repente fosse nuvem robusta (coisa que eu não sou). E assim, quando é, sinto ser possível mover uma tempestade, sinto ser possível controlar raios, trovões, relampagos, você.

Sento na cadeira velha, aquela que continua a machucar minhas costas. Sento na cadeira velha em direção à xícara. Eu poderia escolher outro lugar à mesa, mas não consigo, não devo, ou é alguma coisa que manda em mim e eu obedeço. Sente-se de frente para xícara, sussurra em meus ouvidos.

Se fosse xícara gente. Se fosse você xícara. Humano, carne e sangue, pequena, frágil, sem sentido. Talvez se sentisse bem por ser xícara, por ser humano, por receber uma pequena sensação do que é a vida (a sombra e a luz) e contentar-se com isso, apenas com isso.

Layouts me cansam

2010 janeiro 15
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por Francine Ramos

Precisei mudar a cara do blog. Tentei vários layouts, mas poucos me agradam, não pelo fato do WordPress.com ser limitado quanto a isso, mas layouts me cansam normalmente, por isso eu sempre prefiro aqueles com pouca coisa, básico, sem muitos auês, porque o mais importante é o conteúdo, nénão?

Em dezembro, Karina e eu decidimos de uma vez por todas o novo layout do blog da Clarice Lispector – optamos por um básico, porém bonito e que não fosse a minha cara ou a cara dela, precisávamos de um layout com cara de Clarice Lispector. Acho que conseguimos, passem lá!

Já o blog sobre a Virginia Woolf não houve alteração alguma, porque eu realmente acho o layout lindão, com cara de Virginia Woolf mesmo.

Mas então porque eu quis mudar este? Não mudei porque é ano novo, já deixei claro aqui que esse motivo para mudança de vida, jeito, coisas não me agrada. A explicação é simples: enjoei e também quero dar um ar diferente para este blog: talvez eu aposente o blog Contos e Crônicas e passe a escrever tudo aqui mesmo.

Eu acho que ainda não respondi porque mudei o layout, pois bem: mudei porque estou de férias da faculdade, porque tenho um espaço do meu dia ainda não preenchido. Então tenho 15 dias para perder meu tempo com essas coisinhas aqui. Amo!

Ou qualquer bobagem

2010 janeiro 12
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por Francine Ramos

Eu vim até aqui escrever qualquer coisa: QUALQUER COISA.

Trocando o calendário

2009 dezembro 19
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por Francine Ramos

O ano praticamente acabou e eu não quero a sensação de que deixei de cumprir várias coisas, não quero pensar que precisarei fazer uma lista das minhas prioridades para o próximo ano. Não, não, não.

Eu não quero o limite do tempo, não quero que minha vida possa ser composta entre os meses de um calendário qualquer. Porque meus projetos, meus planos, minha busca pessoal não vai acontecer em determinado dia e mês, vai acontecer em algum canto de mim e simplesmente refletir à minha volta, como uma luz vista de fora que se ascende numa casa qualquer.

Jamais vou deixar minha vida ser conduzida por um calendário, pelo tempo que o homem inventou. Eu tenho o meu tempo, as minhas prioridades e sei exatamente como e quando fazer: no meu tempo particular, ilimitado e tão diferente de um começo e final de mês/ano.

Não que eu não goste de uma boa festa, não que eu não ache divertido pular sete ondas, montar uma árvore de Natal, olhar para o céu e ver os fogos brilhando mais que as estrelas, eu adoro isso, de verdade! Mas é só. Cada uva, cada lentilha, cada fogo de artifício, cada taça de champanhe são apenas o que realmente é. Meus sonhos moram em lugares mais difíceis, mais discretos e eu não esqueço deles quando a festa acaba.

“Waitin’, watchin’ the clock, it’s four o’clock, it’s got to stop”

Os incomodados que se incomodem

2009 dezembro 11
por Francine Ramos

Eu tenho um certo orgulhinho bobo de ser blogueira, um certo orgulhinho de estar por aqui há tanto tempo, pulando de blog em blog, conhecendo pessoas, fazendo amizades, criando afinidades, aprendendo muito, passando um pouquinho do que eu sei e tudo mais. Essa troca é fundamental na vida da gente e eu tento, na medida do possível, transferir por aqui a mesma maneira de me relacionar na vida pessoal (real, carne, osso, alma), porque não dá mais pra separar esses dois mundos. Antes era como se existissem realmente dois mundos: o virtual e o real. E agora parece tudo uma coisa só, não é? E isso não é bom? É!

E por aí eu vou caminhando, da minha forma, no meu tempo. Aqui em Salvador procuro absorver as coisas boas da cidade, procuro filtrar as coisas tristes e, como um quesito fundamental, eu levo muito a sério poder me transformar e transformar o que está a minha volta.

E lá no LuluzinhaCamp estamos debatendo sobre o caso da blogueira Cláudia Mello que precisou pagar um indenização por ter postado em seu blog o relato de um mau atendimento médico e também da Larissa Paschoal que foi ameaçada por um advogado a tirar um post do ar porque comentou sobre uma empresa que não ofereceu a ela um bom atendimento.

Funciona mais ou menos assim: você expõe sua opinião (negativa) no blog. O “outro lado” entra com o advogado para tirar o post do ar e se isso não acontecer você receberá um processo. Geralmente o blogueiro tira o post do ar porque infelizmente não há como agüentar o processo (desgastes mentais e financeiros) e então fica tudo bem – para a empresa/pessoa que prestou o mau atendimento. Absurdo, não é mesmo?

Eu sou totalmente a favor da liberdade de expressão e  isso inclui a situação inversa, exemplo: se o meu nome ou o nome da minha empresa estão sendo expostos de forma negativa eu tenho o direito de reclamar: posso usar de meios mais pacíficos ou quem sabe, chegar às vias de fato: processo.

Onde eu quero chegar com isso? Quero dizer que os dois lados devem ser livres para fazer o que desejam fazer. É claro que, eu, como futura contadora/empresária não agiria radicalizando (processando), porque o princípio de tudo é a humildade. Opa! Se estão falando mal da minha empresa é porque preciso melhorar a qualidade do meu atendimento. E eu vi (li) que a Claudia e a Larissa em nenhum momento utilizaram ofensas ou palavras chulas para relatar o caso e sendo assim, as partes envolvidas poderiam ter entrado em contato com elas de uma forma mais pacífica (utilizando o sistema de comentários como direito de resposta, por exemplo). Ou vendo pelo outro lado elas também poderiam ter procurado o Procon ou algum outro órgão responsável para relatar o ocorrido (não que isso resolveria o problema, mas evitaria o processo), porque escrever num blog sobre outra pessoa/empresa, falando mau do serviço é como fazer uma faixa grande e pregar num semáforo de uma rua bem movimentada, não vejo como ficar imune às consequências. Acredito SIM que é um direito de todos falar o que quiser da maneira que achar melhor, doa a quem doer, mas tem agüentar a porrada até o fim, e esse “aguentar” no Brasil chama-se dinheiro (para contratar um bom advogado e arcas com as custas judiciais).

A parte boa de tudo isso (sim, eu acredito que tudo sempre tem um lado bom) é que esses casos evidenciam o poder dos blogs, o quanto essa ferramenta é um forte meio de comunicação, o quanto o Google nos encontra e nos dá a oportunidade de sermos lidos, ouvidos. Opinião em blogs tem valor, incomoda, fere, marca!

E a única maneira de mudarmos essa situação é o trabalho em conjunto. E também os juízes precisam entender mais sobre internet, os empresários precisam compreender mais que os meios de comunicação evoluíram e que clientes não são robôs consumistas e que, principalmente, uma boa empresa não tem como missão o lucro e sim satisfazer seus clientes – porque o resto é conseqüência.

Se mais blogueiros falarem sobre o assunto podem surgir advogados interessados e inteligentes a fim de abraçarem essa nobre causa: que o dinheiro não pode ser o fator principal para definir o que é justo. Porque um blogueiro incomoda muita gente, muitos e muitos blogueiros incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam muito mais.

Eu moro em duas órbitas

2009 dezembro 6
por Francine Ramos

Faz dois dias que ensaio para escrever por aqui, mas quem disse que esse blog precisa de ensaio? Na verdade não é ensaio, admito, é meu estado de órbita em outro lugar. Tudo porque eu tento ser duas, mas nem sempre consigo.

Vou tentar explicar e espero não ser repetitiva: mas é que amo minha profissão e amo escrever. E essas duas coisas: ser quase contadora e tentar ser escritora me deixa cansada, como se eu tivesse duas chaves que precisam todo tempo serem ligadas e desligas, as duas juntas reduz a qualidade dos meus dois lados. E eu não quero ser metade.

Em certas épocas o trabalho exige de mim mais de 100% de atenção, não que eu deixe ele de lado em outros momentos, mas muitas vezes ao chegar em casa e tirar o salto, o óculos e o casaco não são suficientes para desmontar a quase contadora que mora dentro de mim, porque tudo está na mente mesmo; e o que a gente vê, o que a gente faz, são apenas rituais bobos para tentar o desapego e, infelizmente, nem sempre funcionam.

Então, muitas vezes quando chego em casa e tiro meu salto, meu óculos e meu casaco eu ainda permaneço quase contadora, mesmo querendo (talvez precisando) ser escritora. É assim porque meu lado empresarial e numérico permanece comigo pelo resto da noite, muitas vezes durmo com ele. Como farei amanhã para concluir a conciliação da conta de equivalência? Vou ter que ligar para fulano, mandar e-mail para beltrano e reconfigurar a contabilização para aquele novo tipo de situação. É mais ou menos assim.

Já me perguntaram porque eu não faço um blog sobre contabilidade, seria loucura, porque exigiria de mim muito mais do que posso oferecer, como se fosse necessário eu esmagar a quase escritora que mora aqui dentro.

Pois bem, porque eu quero ser duas? Porque eu preciso. É como comer, dormir, tomar banho, sou assim e pronto.

Dezembro é um mês feliz, é quando visito minha família, quando tiro férias e quando posso esquecer que sou quase contadora. E esse ano está sendo especial, porque já no próximo semestre eu vou me formar e o “quase contadora” não será mais utilizado. Vou poder exercer minha profissão por completo: realizar o trabalho e ver meu nome estampado ao final. Estou ansiosa para ter o meu CRC, torcendo para que ele seja composto de números ímpares, gosto mais.

E meu lado escritora vai ser exercitado também, gosto de ter tempo para olhar, admirar a vida, as pessoas, gestos, vozes, paisagens, histórias…tudo isso faz parte de escrever. Escrever é um ato exigente ao ponto de causar um certo cansasso. Clarice Lispector tinha razão quando disse “escritor é uma pessoa que se cansa muito, e que termina com um pouco de náusea de si, já que o contato íntimo consigo próprio é por força prolongado demais.”

Ah, eu amo minha vida, amo os rumos que ela tomou e me deixou ajustar-se a isso tudo. Com meus 27 anos vou caminhando como posso, puxando os meus dois lados, minhas duas moradas, minhas duas órbitas. Quando estou lá continuo admirando a vida, isso acontece sempre, mesmo que seja com meus olhos numéricos de contadora ou meus olhos letrados de escritora.

Um passo para a dignidade

2009 novembro 26
por Francine Ramos

Eu devo agradecer por ter uma família especial e por nunca ter sofrido qualquer tipo de violência física, mas isso não diminui minha responsabilidade como cidadã de falar um pouco sobre esse assunto tão delicado. Digo cidadã, porque não escrevo isso porque sou mulher, também claro, mas principalmente porque combater a violência é um dever de todas as pessoas dignas.

Não sei se dignidade é a palavra adequada, me desculpe, é o sono. Mas esse sono não vai sucumbir, eu luto.

No meu trabalho eu sou apenas uma das muitas mulheres de lá. E ainda ouço muito que lugar onde tem muita mulher é um lugar de fofoca, eu não vejo assim, mas também não acho que ambientes empresariais sejam bons. Podem ser sim, mas também tem o lado ruim e isso independente se a maioria é homem ou mulher.

Há seis anos, quando fui contrata por essa empresa, na terceira etapa do processo seletivo eu ouvi da pessoa que seria o meu supervisor que ele tinha preferência por contratar um homem e que ele estava em dúvida se escolhia a mim ou a um rapaz. Isso foi dito no final da entrevista, eu não lembro bem qual foi a minha reação, mas não deve ter sido nada demais. Será que fiz cara de que não tinha ouvido aquilo? Pode ser, porque eu realmente não lembro como reagi, talvez eu não entendi que naquele momento eu tinha sido agredida por ser mulher. Sim! Porque agressão não compõe apenas questões físicas e naquele momento ele agrediu o meu “ser mulher”. Porque sou mulher não sou tão boa como o outro candidato?

Dias depois a empresa me chamou, a vaga era minha! E tempos depois, já com certa liberdade para a pergunta, questionei meu supervisor porque ele me escolheu, já que preferia um homem. Ele disse rindo, sem parecer que dava real importância para tal. É porque mulher faz muita fofoca. Palavras dele. Eu ri, porque  eu não me senti mal por aquilo, na verdade eu me senti vitoriosa, pois apesar do preconceito bobo dele, eu venci.

E seria bom e simples se todas as mulheres do mundo lidassem apenas com esses estereótipos, porque apesar de difícil não é impossível derrubar essa imagem, eu acredito muito nisso! Basta apenas esperar o momento certo para poder expor sua verdade, sua coragem, sua dignidade.

Porém a violência física tem um peso maior (incluo aqui a tortura psicológica e outros gêneros), porque não há o momento certo para impor o respeito, para marcar território. O momento é sempre agora, é sempre o presente!

Há alguns anos atrás eu estava num ônibus indo para Registro (SP) e uma senhora sentou do meu lado. Eu estava lendo As Ondas e ela ficava tentando puxar conversa comigo, a principio eu não gostei, porque eu realmente estava querendo ler o livro, mas quando percebi que ela precisava conversar e não ia parar enquanto não conseguisse, fechei o livro, cruzei as pernas e conversei com ela a viagem toda.

Entre as histórias sofridas que ela me contou a que mais me deixou triste foi o relato dela do Natal que passou sendo espancada pelo marido bêbado. Seus filhos, ainda pequenos, estavam no quarto dormindo (porque cansaram de esperar o Papai Noel). E ela contou tudo isso com muita clareza, com muita tranqüilidade. Ela contou também que depois da noite estúpida de Natal ela fugiu de casa com os filhos e foi em busca de uma vida melhor. O tempo passou, os filhos cresceram, um deles virou bandido, o outro arrumou um emprego legal e ajudava com as despesas da casa. Eu queria ouvir mais, a história dela estava mais interessante que o livro da Virginia Woolf. Mas a viagem chegou ao fim, passou tão rápido.

Assim que estávamos nos levantando do ônibus ela me disse que o próximo passo era aprender a ler. Eu ainda vou ler livros igual a você. Eu sorri e perguntei: como é o seu nome? Meu nome é Glória.

Esse post, então, é para a Glória, uma homenagem singela, mas que faço de coração. O mundo precisa de força, de energia, e que todas as pessoas que sofram qualquer tipo de violência consigam dar a volta por cima, que possam seguir em frente com dignidade. Com dignidade.

Meu primeiro Luluzinha Camp

2009 novembro 23
por Francine Ramos

Passou o furacão Luluzinha Camp em minha vida e eu adorei! Foram vários encontros no Brasil inteiro: Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul. Temos fotos e posts por todos os lados, confiram:

Posts:

Blogueiras Baianas, por @danividal

LuluzinhaCampBa, por @mamontes

LuluzinhaCampBa, por @raquelelbacha

LuluzinhaCamp Bahia – 1ª edição, por @tamarasleyne

#luluzinhacampba, por @annyllinha

LuluzinhaCampBa – capitãs desse mundo, por @jeniffersantos

Fotos:

As fotos feitas por @danividal estão aqui.

As fotos da @magdamontes, aqui.

Da @jeniffersantos, aqui.

Da @episodios, aqui.

Ah, sim, as fotos que tirei (do celular #fail) estão aqui, junto com as fotos de todo o Brasil :)

PS.: Esse post será itinerante, assim que eu souber de alguma luluzinha postando sobre o encontro, linko aqui. :)

Será que chove?

2009 novembro 14
por Francine Ramos

Quando eu era pequena gostava muito de passear na feira com a minha avó. Entre sacolas de couve-flor, maças e pêras ela sempre parava na calçada para conversar com uma amiga de longa data. E quando o assunto acabava ela sempre perguntava “será que chove?”. Aprendi com ela essa frase bobinha quando o assunto acaba.

Aqui na Bahia, por exemplo, (acredite se quiser) sempre chove. Será que chove? Claro! Pelo menos uma chuvinha passageira tem.

E tantas outras coisas mais também tem quando o assunto acaba. Porque no fundo não é o assunto que acabou – todo mundo sempre tem algo a dizer – mas o que acaba é a vontade de dizer. Isso sempre acontece comigo.

Muitas vezes o papo inicial flui lindamente bem – pode ser na feira, no supermercado, no trabalho, no bar – tudo vai de vento em popa até que o silêncio invade e a afinidade vai embora como um passe de mágica. Sensação ruim!

Mas eu lembro da minha avó e agradeço ao deus que inventou a memória. Será que chove?

Chove sim, olha aquela nuvem lá no horizonte. Que horizonte? não vejo nada!

E com uma resposta assim eu definitivamente não preciso – não quero – mais conversar. Eu gosto de gente, gosto muito! Mas somente daquelas que vêem a chuva chegando lá no horizonte e dizem “que bonito esse céu cinza!”

Por que não?

imagem do site Baixaki

Quando penso e não escrevo

2009 novembro 8
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por Francine Ramos

A frequência aumenta na mesma proporção que digo – não posso esquecer meu caderninho de anotações, não posso ter preguiça de escrever quando a idéia vem, não posso confiar em mim que eu não vou esquecer aquele bom pensamento.

Eu estava agora a pouco na janela e a lua olhou pra mim. Mas foi tão rápido porque logo uma nuvem acabou com a nossa festa. Mas ficou tão bonito aquela nuvem tentando cobrir o brilho pálido da lua! A vida é assim: ficamos com raiva daquela nuvem que estragou o momento perfeito, mas não é isso. A nuvem complementou o bom momento. Olha só, estou aqui, cheguei sem avisar, mas não quero atrapalhar sua festa.

É uma questão de direito pelo espaço no céu. Afinal o mundo é livre (pelo menos deveria ser).

Eu comecei escrever este post ontem, mas aconteceu o que eu disse: o pensamento – minha lua – foi pega de surpresa por uma nuvem, perdeu-se.
Fim.

(porque eu realmente não sei como terminar esse post.)

Foto do meu celular - quando a nuvem cobriu a lua

O primeiro plágio a gente nunca esquece

2009 novembro 1
por Francine Ramos

Tem gente que ainda acha que internet é uma terra sem lei e graças aos comandos CTRL C e CTRC V usam e abusam da rede.

Eu já escrevi aqui casos de textos plagiados, porque eu realmente fico preocupada quando isso acontece. É uma afronta, um desrespeito total com o escritor. Você vai lá, trabalha o texto, perde suas horas escrevendo, tecendo a história e vem uma pessoa e simplesmente ROUBA o seu texto (publica em outro lugar e não diz ao final “esse texto é de fulano de tal”). Por que parece tão difícil fazer isso?

Sim, eu acho que em alguns casos a pessoa age por pura ingenuidade. Talvez porque lá no colégio a professora pediu um trabalho sobre Ecologia e então a mente brilhante escreveu no Google o que queria, encontrou uma porção de coisas, aplicou a mágica do CTRL C / CTRL V e ainda (o que é pior e mais doloroso) a professora deu nota 10. Poxa copiar e colar funciona mesmo, obtive sucesso! Não! Não funciona! É apenas uma ilusão estúpida de que se construiu alguma coisa.

Plágio é Crime!Mas então como eu faço para mostrar às pessoas um texto bom que eu li? Simples: indique ao final da onde você tirou o texto e quem é o autor. E se quiser fazer melhor ainda entre em contato com o autor pedindo a autorização para tal. Ele vai adorar!
Mas porque deve ser assim? Simples também: é a Lei 9.610, de fevereiro de 1998:

  • Art. 29. Depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, por quaisquer modalidades, tais como:
    I – a reprodução parcial ou integral;
    II – a edição;
    III – a adaptação, o arranjo musical e quaisquer outras transformações;
  • Art. 108. Quem, na utilização, por qualquer modalidade, de obra intelectual, deixar de indicar ou de anunciar, como tal, o nome, pseudônimo ou sinal convencional do autor e do intérprete, além de responder por danos morais, está obrigado a divulgar-lhes a identidade da seguinte forma:
    I – tratando-se de empresa de radiodifusão, no mesmo horário em que tiver ocorrido a infração, por três dias consecutivos;
    II – tratando-se de publicação gráfica ou fonográfica, mediante inclusão de errata nos exemplares ainda não distribuídos, sem prejuízo de comunicação, com destaque, por três vezes consecutivas em jornal de grande circulação, dos domicílios do autor, do intérprete e do editor ou produtor;
    III – tratando-se de outra forma de utilização, por intermédio da imprensa, na forma a que se refere o inciso anterior.

E é claro que existe o outro lado: se a pessoa copiou o texto é porque ela realmente gostou. E para uma escritora amadora como eu, isso não deixa de ser uma massagem no ego. Mas devemos ser respeitosos, racionais. Então, eu só peço que as duas meninas que utilizaram meus textos em seus blogs que, por favor, digam lá embaixo que o texto é meu, eu tenho esse direito!

  • Art. 24. São direitos morais do autor:
    I – o de reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra;
    II – o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utilização de sua obra;

Não seja um blogueiro parasitaO mais engraçado (pra não dizer que dá vontade de chorar) é que nos meus dois blogs eu informo que uso a Licença Creative Commons e o Copyscape. Mas e daí? Se for feita uma pesquisa complexa sobre o perfil dos copiadores da internet certeza que 100% deles não imaginam o que isso representa.

Para os curiosos, os meus textos plagiados foram: A dois passos e Um amante proibido. O primeiro plágio você encontra aqui, o outro aqui.

E só um aviso: não adinta excluir o texto, já dei Print-Screen em tudo.

Ele não sabe dançar

2009 outubro 28
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por Francine Ramos

A pouco tuitei: Às vezes é necessário parar algumas coisas e começar outras. Não é descaso. É organização para não tornar a vida insuportável. Logo após resolvi comer meus cereais com frutas, mas foi apenas o tempo de preparar meu alimento e voltar pra frente do computador.

Fiquei olhando números e formulas que não mais faziam sentido, a brisa entrava pela janela e já não me causava efeito. Era um estado anestésico sobre aquela planilha complexa e uma colherada de cereal com maça e banana.

Mas o telefone tocou, e como é bom quando o telefone toca. Por sorte não era o celular, que estava logo ao meu lado. Era o telefone lá na sala me chamando. Carreguei meu prato de cereal junto.

Alô. Mãe! Oi, minha filha, o que você está fazendo? Comendo e fazendo um trabalho da faculdade. Filha, você já viu as passagens das suas férias? Ainda não, mãezinha, logo verei. E como está o Giovanni? Ele continua cada vez mais lindo e seu pai, cada vez mais velho e com o hábito de irritar o menino, ontem perguntou à ele quem era o marido da múmia. O Gi respondeu ‘vô, eu não sei’. Seu pai ficou insistindo e ele repetiu ‘vô eu já disse que eu não sei isso, estou vendo desenho e o senhor está me atrapalhando’. Levei ele tomar banho e expliquei pra ele não ligar pro seu pai, porque ele está velho, sabe o que ele disse? “Vó, o vô está velho porque ele não sabe dançar”. Da onde esse menino tira essas coisas?

Eu parei por alguns segundos, o prato de cereal murchou. Mãe, o Giovanni tem razão no que ele diz. Mas minha mãe emendou outra história. Que ela engordou 1 quilo, que a amiga de caminhada dela não pode mais acompanhá-la e que o meu pai está realmente velho para fazer alguma atividade física com ela.

Eu estava em silêncio, pensando. Ele está velho porque não sabe dançar.

E quando nos despedimos eu fiquei pensando quando foi a última vez que dancei. Senti um certo alívio. Não faz tanto tempo assim, mas sempre é bom dançar. Sempre é necessário parar algumas coisas e começar outras. Não é descaso. É organização para não tornar a vida insuportável. Isso, aos olhos de uma criança é simplesmente dançar.

Dançando na chuva